Domingo, 19 de Dezembro de 2010

A enfermeira restou comigo. Disse que tinha de lá estar três horas comigo para analisar o efeito da medicação em mim. E quando me aconchegou, após a injecção dolorosa na mão, eu chorei. Ela, ela puxou uma cadeira de longe para perto da minha cama. E sentou-se. Olhou-me com mais seriedade e perguntou-me porque eu não sorria. Eu contei-lhe. Entre lágrimas entre espasmos, entre gritos mudos eu contei-lhe pela calada da noite o que me ia na alma desde à 3 anos. Contei-lhe o tormento que diariamente sofria desde os meus quinze anos. Ela ouviu, não me questionou. E sorriu como quem sorri para um vizinho que já há muito se conhece. Ela disse-me que tinha reconhecido o meu olhar. Ela mesma já se olhou ao espelho. Ela mesma já viu o meu olhar no seu, ao espelho. O que o meu José me fazia, o seu pai lhe fazia. Ela contou cada pormenor. Contou quando começou. Contou quando acabou. Contou como acabou. Acabou com o pai dela na prisão. Ela grávida dele. A mãe suicidou-se atirando-se contra um comboio. E o pai dela ainda hoje resta na prisão. O pai dela, o respeitado professor e depois reitor da Universidade. O pai dela foi preso por abusos sexuais, continuados, não só à própria filha, mas a todas as alunas que precisavam de boas notas. O pai dela que lhe batia à noite, primeiramente por ela ser a segunda melhor aluna da turma. O pai dela que nunca levantou a mão á mãe, mas lhe dava presentes e anéis em troca do silêncio e da aceitação dela. O pai dela que procurava prostitutas até descobrir a puberdade da única filha. Mas sabe, quando ela me contou eu suspendi o choro. Não por ser uma história chocante, mas porque o meu mal não era nada igual ao dela. E sabe o que ela me disse : todos os pequenos males, são grandes males. E levantou-se e aconchegou-me outra vez.

 Acho que ela já estava em delírio. Perguntou-me se podia fumar. Eu deixei. Deixei que a enfermeira chefe brotando lágrimas fumasse num quarto de doenças infecciosas. 



publicado por naná às 23:49 | link do post | comentar

13 comentários:
De Catia a 20 de Dezembro de 2010 às 00:00
Tu escreves de uma forma magnífica. Apesar de todo o horror que esta história tem, ela é maravilhosa. Só não gostei do nome do rapaz, por eu ter um André. Mas está fabulosa, como tudo o que escreves. Parabéns :)


De Effy_Edwards a 20 de Dezembro de 2010 às 00:25
Como alguém disse nos comentários, escreves mesmo muito bem. 
Parabéns :)


Beijinhos^^


De summer wright a 20 de Dezembro de 2010 às 00:29
maravilhoso. embora ache que devias animar os temas. o mal existe em todo o lado, é a realidade e eu sei disso, mas faz mal.


De mudou a 20 de Dezembro de 2010 às 00:36
adoro. adoro estes teus dramas.


De -Alguem a 20 de Dezembro de 2010 às 01:11
 Olá :D
 Só descobri o teu blog hoje e comecei a ler este teu Post. 
Desculpa a pergunta, se quiseres nao respondes, mas isto foste tu que inventas.te ou viveste mesmo?


De raspberryessence a 20 de Dezembro de 2010 às 01:20
Gosto do "ar" acolhedor do teu blog. Entra-se aqui e parece que ja se vem aqui á séculos! um beijinho


De annesophie a 20 de Dezembro de 2010 às 11:07
adoro, adoro e adoro. está mesmo realista e intenso.
infelizmente, embora seja fictício para muitas de nós, há imensas adolescentes a sofrerem com isto.


De mariana ♥ a 20 de Dezembro de 2010 às 12:14
 

ahah, obrigada (: .

 tudo bem?beijinhos.



De narmy. a 20 de Dezembro de 2010 às 12:48
concordo com a summer. todos os teus textos são fantásticos, mas gostava de te ver a escrever algo mais alegre por vezes.
à parte isto, adorei a história. chocante.


De C. a 20 de Dezembro de 2010 às 14:00
Gosto da maneira como transmites o que te vai passando pela cabeça. Boa! :D


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