Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Nesta época só me apetece rir pelos meus que já partiram. Rir-me não deles, mas com eles.

Tenho um ciclo vicioso de me sentar junto da lareira com um copo de qualquer coisa na mão e forço o olhar. E vejo-Os. Vejo os meus avós paternos e maternos, vejo o meu pai, vejo todos os outros que já me morreram. E fico no calor conversando com eles. Chamem-me maluca, doida, Satanás. Mas eu consigo trazê-los à terra. O milagre não é só de Jesus. É meu também. Este ano brindarei a sua volta à terra com um copo de vinho. Tão jovem e já bebe vinho? Perguntam as almas curiosas aos meus mortos. É verdade digo-vos. É verdade que o gosto do vinho salva corações perdidos, feridas abertas, mágoas negras. Este ano partilharei com todos os vivos o meu poder de trazer almas mortas à terra. Sentar-me-ei naquele banco, embeberei o meu corpo em álcool e falarei em alto e bom som: olá meu pai, olá meus avós, como estão?

E aí verei os olhares dos vivos caídos e assombrados, verei as mãos a abaterem-se sobre mim e sorrirei.



publicado por naná às 18:22 | link do post | comentar

9 comentários:
De narmy. a 23 de Dezembro de 2010 às 18:50
adorei este texto, e se isso de facto acontece, então és uma sortuda, por poderes rever o rosto dos que amas.

obrigada. :)


De mudou a 23 de Dezembro de 2010 às 19:11
perfeito.


De C. a 23 de Dezembro de 2010 às 19:15
se estão contigo sempre, a toda a hora, esses momentos com eles, são a recompensa.


De summer wright a 23 de Dezembro de 2010 às 19:24
a diferença entre nós é que não bebo vinho.


De Leonor a 23 de Dezembro de 2010 às 21:10
Confesso que achei o texto um pouco estranho, e que me custa acreditar que essas coisas sejam verdade...

Mas se assim for, é óptimo para ti :)

P.S.: A estranheza do texto é a característica que o torna mais especial. Mais belo.


De Antonio F a 23 de Dezembro de 2010 às 22:02
O milagre está na subtileza em perceberes, o quão subtil é a fronteira entre a vida e a morte.
Tchin!  Tchin!


De naná a 24 de Dezembro de 2010 às 00:17
brindemos aos vivos e aos mortos. a nós que cá estamos e aos que vão. intrigas-me demasiado, (julgo já poder chamar-te tu). intrigas-me. acho que te estás a tornar numa das minhas pequenas obsessões.


De Antonio F a 26 de Dezembro de 2010 às 00:58
És !!


De Cath a 28 de Dezembro de 2010 às 22:07
deliciei-me a ler , juro.
 "É verdade que o gosto do vinho salva corações perdidos, feridas abertas, mágoas negras", perfeito.



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