Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Talvez seja assim mesmo o destino. Sádico, suicida e angustiante. Talvez seja por causa dele que muitos de nós deitam a cabeça na almofada e desesperam.

Nenhum de vós encontra a mesma calma que eu no cheiro a tabaco a arder, e um gosto de café na boca.

É tão estranho, e inconveniente que uma profissional de saúde se assuma como viciada. Não tenha bons princípios morais, e uma profissional que distingue o bem do mal pela frase "não faça aos outros aquilo que não queres que te façam a ti". Por isso, quando eu assinei a objeção de consciência para com o aborto eu fiz uma escolha entre o bem e o mal. Escolhi não auxiliar ninguém neste método que eu mesma considero como homicídio.

É claro que situações são explicadas, mas “porque sim” não tem cabimento. Não me arrependi de ter formalizado o documento, e no hospital encontrei mais como eu. Malditos portugueses que amam os sofás e se esquecem que os referendos servem para algo. 

Mas, hoje vou pensando se fiz o correto ao longo dos meus anos de serviço...sempre que me sento na cadeira recordo-me das mulheres lavadas em lágrimas que me pediam auxílio para chegar á maternidade onde teriam a consulta para a morte, e eu, sem consciência as levava lá.

Mas, a tortura deve ser diária para estas que abortam. Ao levá-las à maternidade, fazia as morrer por dentro. Primeiro levava-as pela zona do berçário, deixava-as ouvir os bebés chorar, e os enfermeiros a embalar um recém-nascido que chora pelo mundo, após isso, fazia um desvio, e deixava-as ver as indicações para a capela mortuária... Por volta dessa zona virava costas e finalmente as deixava no sítio certo. A cada situação destas o meu coração cada vez necrosava mais, e os meus olhos ficavam denegridos.

Quem faz mal assim não merece viver... 

Ninguém sabe, nem ninguém saberá, que eu já fiz um aborto. Fiz um aborto quando um ladrão resolveu espancar-me e violar-me porque eu não tinha dinheiro.

Eu tinha um filho no ventre, onde hoje tenho um vale seco, e perdi-o. Nada pode ser feito.

E essas mulheres, que hoje, e todos os dias adiam que a alma do meu filho possa finalmente encontrar um corpo, devem ser sujeitas a tortura.

Porque não posso ser só eu a carregar a morte no ventre, todos os dias, todas as horas.



publicado por naná às 23:15 | link do post | comentar

5 comentários:
De Dany a 24 de Abril de 2012 às 12:51

Estou completamente arrepiada, é só o que posso dizer.


De naná a 24 de Abril de 2012 às 19:24
:) beijinho


De Leucócito a 24 de Abril de 2012 às 14:20
Ai... a sério... eu não tenho palavras, o meu estômago ficou reduzido ao tamanho de um átomo...


De naná a 24 de Abril de 2012 às 19:24
mas não é real, sempre podes atenuar essa sensação assim*


De Leucócito a 25 de Abril de 2012 às 12:31
Ainda assim... esse é um assunto muito forte...
beijinhos


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