Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

        personagem masculina:    

 

            Estou sentado só neste banco imenso. A noite cheira bem, cheira ao brilho da Lua. Hoje arrumei a minha casa imensa. Descobri que é muito grande para mim. Em breve me mudarei. Já empacotei o que restava da minha mãe, do meu pai, da minha irmã. Arrumei o meu coração. Fui ao restaurante jantar. Sorri à empregada. Recebi olhares de uma senhora que jantava sozinha. Sorri para mim mesmo. Sinto-me finalmente, no alto dos meus 30, um homem. Questiono-me internamente porque restei só até esta idade?

            Até que dobra a esquina. Uma mulher que julgo já ter visto. E sorri. O meu olhar vago não lhe responde ao sorriso. Uma lágrima teimosa rola pelo meu rosto. Ela corre. Vem na minha direcção. O meu olhar ganha outro rumo. Ela senta-se junto a mim. Trás uma felicidade estonteante rodando-lhe o corpo perfeito. Olho-a. Ela senta-se junto a mim e dá-me a mão. Eu sorrio-lhe. Ela senta-se junto a mim, dá-me a mão e proclama: "procurei por ti uma vida.". E mais uma vez sorrio. Pois sinto o mesmo.

            Inclina-se sobre mim e pousa a cabeça sobre o meu ombro. Nunca me senti tão aliviado por carregar o peso de alguém sobre o ombro. Move-se. Olhamos juntos o céu iluminado. E falamos no vazio as palavras que nunca dissemos a ninguém. Somos metade de um corpo só. Sou a parte que complementa o seu ser. É a parte que complementa o meu ser.

            Estamos juntos hoje. Estamos juntos amanhã. Estamos juntos sempre. Esta é a noite dos amantes. É a noite da mudança. Hoje é a noite de aventura. Vens comigo para minha casa. Tornamo-nos um só. Cada parte do teu corpo me parece um caminho já por mim percorrido. Beijo cada um dos teus sinais. Beijo o teu peito inexistente. Amo-te. Louvo-te. Sou teu e tu és minha. E, quando a lua se coloca no ponto mais alto do céu, eu me torno teu, e tu me tornas minha. Unimos a carne. Unimo-nos no pecado. Gritamos palavras de liberdade. Soltamos sons de agonia. Soltamos os espíritos negros que residiram no nosso corpo demasiado tempo. Por fim, elevamos o nosso corpo num último grito final. Esse mesmo que trouxe a libertação de mágoas passadas, esse que salvou corpos perdidos. Dormimos abraçados na noite. Beijo-te a pele branca. Perdida entre os lençóis brancos da minha casa. Porém, mesmo ele se sentem escuros tal é a cor de marfim da tua pele. Todos meus móveis se renderam à tua beleza e perfeição. As minhas cortinas agitavam-se aquando a tua respiração. E agora que adormeceste no meu colo, o meu quarto resta calmo. Similar á passagem de um furacão.

            Levanto-me e abro as janelas. Liberto para a noite os espíritos que soltamos. Outra alma perdida os respirará e a nossa dor será prolongada. Cheiro a noite. Cheira à lua. Cheira ao brilho da lua. E sorrio. Volto para a cama, junto-me a ti. E sinto que é onde eu pertenço.


sinto-me aliviada.
música scar tissue - red hot chilli peppers

publicado por naná às 22:17 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 28 de Novembro de 2010

senhor na mesa do casamento: "o senhor tem uma filha muito bonita, muito bonita."

 

Sorriste ao senhor e agradeceste. O senhor piscou-me o olho e disse-me baixinho: cuidado com os rapazes. Olhaste para mim, tinhas os olhos gelados. Há quanto tempo não te via assim Meu Pai, há quanto tempo. Saímos do casamento, tomaste-me o braço e disseste brusca e dolorosa e perdidamente : uma menina nunca deve ser vista só pela sua beleza, nunca, nunca, também tens cabeça. és uma menina ainda.

Morreste-me 3 meses depois, e por isso, nunca deixei de ser uma menina. Não me importo com os olhares lascívos que me deitam na rua, não quero saber se esta camisola é demasiado decotada, porque, só sorrirei de volta a um homem quando ele me olhar para a inteligencia.

Porque uma menina nunca deve ser vista só pela sua beleza, e eu, continuo eternamente menina passeando com a beleza.



publicado por naná às 23:30 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Sábado, 27 de Novembro de 2010

quando tu olhas para mim, tu queres-me. é essa a verdade.

todos querem o meu corpo. as mulheres também. sou realista. não convencida. sim, ninguém me resiste. sou loira, alta, linda. olhos grandes, olhos azuis. dentes brancos. lábios volumosos. lábios vermelhos. grande peito. grande sorriso. boa voz.

sou tão perfeita que tu apenas me queres despir e levares-me para a tua cama. é essa a verdade. queres-me foder sempre que me vês. confessa. o teu sonho de uma vida é teres uma mulher como eu.

então, porque é que só me queres comer? porque não me queres tentar fazer feliz? sou simples. não sou egoísta.

consigo amar e ser amada.

não nasci para ser usada.


música Madness - Our House

publicado por naná às 15:04 | link do post | comentar | ver comentários (15)

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