Domingo, 25 de Março de 2012

Estávamos na cama a falar. Falávamos em tons suaves quando queríamos mesmo eram discutir. Não tenho culpa de ter referido que te estava a roubar a possibilidade de teres filhos. É verdade amor, tens 39 agora e eu só tenho 17. Sabes bem que quero estudar, e uma gravidez não é adequada. Dizia eu sem te olhar nos olhos. Falaste em congelação de espermatozóides e afins. Mas nada me tira este peso do peito. Amor, depois vais ser pai na idade de seres avô. Ainda tens uma mulher que te aguarda e te quer. Uma mulher fértil e fecunda com amor para ti. Respondi-te gaguejando e chorando sangue. E tu lançaste eu não a amo. Chega para que a rejeite. E levantaste-te. Só tinhas os boxers mas mesmo assim, na noite fria gelada do Norte abriste a janela do quarto e fumaste um cigarro. Eu levantei-me da cama também. Vesti a tua camisa e saí porta fora. Fui ao fim do corredor e comprei café. Duplo para mim, simples para ti. Enquanto esperava escorreguei a parede fria e sentada no chão percebi que não te posso perder. Voltei ao quarto e estavas a chorar de cigarro na mão. Deixei os cafés na mesa e fui-te abraçar à janela. Não me respondeste. Não deixaste o cigarro. E só consegui exclamar: só tenho medo que te arrependas, porque não te consigo perder. Atiraste o segundo cigarro, intacto ainda, pela janela fora. Tomaste o meu corpo e abraçaste-me. Disseste que eu era a salvação dos teus dias. Beijaste-me e encostaste-me à varanda. Quanto gelo tinha eu. Os pés descalços no chão frio orvalhado, as costas desnudadas nas grades geladas pela geada. Olhaste-me os olhos e disseste que até de noite eu era bonita. E perguntaste: o que queres de mim? Eu disse à noite eu de ti? Quero-te a ti. Não sei se percebeste. Mas levaste-me para a cama outra vez. Beijaste-me como se eu fosse tão tua como sou minha, e, com a janela aberta possuíste-me outra vez pela noite fora. Acho que adormeci sobre o teu peito. Nua ainda, com a janela aberta. E vi que somos a cura perfeita para os nossos vícios. Eu que te abraço enquanto fumas, tu que me olhas enquanto tomo o café.



publicado por naná às 18:22 | link do post | comentar

13 comentários:
De J. a 7 de Janeiro de 2011 às 19:03
tão perfeito. favorito (:


De marisa duarte a 7 de Janeiro de 2011 às 19:12
gostei :)


De joe. a 7 de Janeiro de 2011 às 19:22
o texto está lindo! Adoro a maneira que descreves as coisas! 
beijinho.


De Emy a 7 de Janeiro de 2011 às 19:26
adorei, um dos meus favoritos, está lindo (:

beijinhos *


De Cath a 7 de Janeiro de 2011 às 19:26
adorei, completamente (:


De C. a 7 de Janeiro de 2011 às 19:53
Gostei bastante!
Eu tenho os dois vícios. Café e tabaco.


De Adriana Gonçalves a 7 de Janeiro de 2011 às 20:12
uma palavra? impactante. sem dúvida, texto lindo :) e sentido.
beijos querida*


De narmy. a 7 de Janeiro de 2011 às 20:21
sabes, a vida ainda pode ser vida sem filhos, e para quem os quer mesmo, mais vale tarde do que nunca.


De summer wright a 7 de Janeiro de 2011 às 21:55
o amor é uma perdição, não o consigo ver como cura, apenas como doentio. mas eu e esses assuntos não somos grandes amigos, por isso, não leves em conta o que digo.


De Dany a 8 de Janeiro de 2011 às 15:34

Gostei tanto, tanto deste texto. Está mesmo fantástico +.+


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