Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Lembro-me de uma vez em que fomos almoçar fora. Íamos a um mosteiro qualquer, numa daquelas visitas familiares, e fomos comer. Foi bom ver-te comer com deleite, e acompanhares a comida com água. Brincaste com a situação e disseste: tomara eu ser Deus, assim transformava esta água em vinho. Eu sorri, porque verdadeiramente tinhas piada. Mas, eu sofria. E sorria na mesma, o teu apetite tinha voltado. E a tua virilha magoada já não te mudava o andar.

Depois de almoçarmos fomos fazer uma caminhada, estávamos a passear junto ao rio e sentaste-te. Não sei, mas olhei-te nos olhos. Doeu-me tanto ver-te tão fraco. Doeu-me tanto ver-te sentado, suspendendo o choro e amarrado às pernas. Eram cãibras, outra vez, outra vez sem puderes andar, meu Pai. Não sei se só ficaste em sofrimento nessa altura ou se já enquanto almoçavas te doía. Sei que fugi para um rio próximo e chorei, olhei para a água e deixei lá as minhas lágrimas, e disseram-me: sê forte, que tal como o rio que corre até ao fim, a vida faz o mesmo. E eu chorei mais ainda, praguejei com os botões, deitei pedras na água violentamente. E perguntei aos céus porque raio me faziam isto a mim, eu sou tão pequenina!! Eles não me ouviram, mas roubaram-me as lágrimas, e as tuas, meu Pai. Subitamente caíram lágrimas do céu, e eu fui ajudar-te, meu Pai a levantares-te e fui ao teu lado até ao carro. Disses-te-me, esforçosamente sorridente: eu estou bem menina, eu estou bem menina. Sentamo-nos no carro enquanto os céus choravam por nós, e olhei-te pelo retrovisor,  não me sorriste como fazias habitualmente, simplesmente olhaste para mim. Acho que sempre fui a tua menina, sempre te vi, sempre te admirei, sempre quis ser como tu. E tu soubeste o quanto eu ia sofrer quando te fosses embora. Mas nem tu, nem eu, sabíamos que o céu chorou a tua morte prematura.



publicado por naná às 21:40 | link do post | comentar

17 comentários:
De lostdreams a 25 de Janeiro de 2011 às 21:48
tão triste.

 


De summer wright a 25 de Janeiro de 2011 às 21:55
fico sempre sem saber o que dizer.


De Emy a 25 de Janeiro de 2011 às 22:01
está lindo e ao mesmo tempo tão triste :'), mas um óptimo texto


De camiladarci a 25 de Janeiro de 2011 às 22:04
Oh, querida, visito hoje o teu blogue e ao ler esta carta senti-me quase em ti. lembrei-me da dor que é perder uma avó e respeitoasamente vejo que perder um pai causa-nos mais que dor, sofrimento. muitos beijos, o teu blog agadou-me muito, naná :)


De summer wright a 25 de Janeiro de 2011 às 22:09
gosto de todos os tipos de cabelo, o único que exijo que se mantenha comprido o meu. não a sério, é mesmo na boa, a sério que é, caso contrário nem aqui viria! se quiseres ler força, a primeira temporada tenho-a no aaa e a segunda anda a ser postada no ac, podes ler quando quiseres e ao ritmo que quiseres como se fosse um livro. 


De J. a 25 de Janeiro de 2011 às 22:26
obrigada pelas palavras. são meras tentativas de escrever poesia naná (: mas tento que elas tenham rumo, e no fundo para mim têm =)
quanto ao teu texto, tal como as cartas para a minha mãe, este fascinou-me, não só pelo conteúdo, mas pela forma como te expressas. acabas sempre por conseguir meter-me na tua pele. e isso é uma sensação fantástica.
e naná. admiro-te


De narmy. a 25 de Janeiro de 2011 às 22:27
uma memória dolorosa de ler, e ainda mais dolorosa para ti, que a sentiste. contudo, é bonito ver o amor que tinhas pelo teu pai.


De lostdreams a 25 de Janeiro de 2011 às 22:28
esse não li. mas os livros dela tem esse poder, de nos deixar surpreendidos.


De joe. a 25 de Janeiro de 2011 às 22:30
naná, eu começo mesmo a ficar sem palavras para descrever o que sinto enquanto os meus olhos consomem tuas palavras. Tu, apesar de ser um texto triste passas uma emoção de tamanha intensidade que assusta e corta-nos a respiração até ao final da frase. 
Meus olhos consomem tuas palavras, meu coração consome os sentimentos que ele nos transmite. 
Minha alma cobiça tua maneira de escrever e apaixona-se! (:


De WhySoSirius a 25 de Janeiro de 2011 às 23:33
Até fiquei com lágrimas nos olhos, querida. Sofreste tanto. E por outro lado, tornaste-te tão forte. Tão segura. Ou pelo menos é isso que deixas transparecer. Tenho a certeza de que o teu pai estaria muito orgulhoso de ti. Muito mesmo.


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